Corrida ao Senado 2026: O Xadrez Político que Agita (e Esfria) Alagoas.
Arthur Lira, Renan Calheiros, Alfredo Gaspar e Marina JHC. - Foto: Reprodução/Agora Alagoas
"Gelado", mas Estratégico.
O cenário político de Alagoas no despertar de 2026 é marcado por uma dualidade intrigante. Nas ruas, o clima é de um "vácuo de poder calculado", onde a tradicional efervescência das pré-campanhas deu lugar a um imobilismo estratégico. No entanto, por trás dessa calmaria aparente, os bastidores fervem com o choque de clãs rivais que tentam redesenhar seus feudos eleitorais antes do início oficial do pleito.
Enquanto nomes de peso, como o ministro Renan Filho (Transportes), equilibram-se entre a vitrine de Brasília e o palanque local — observando se o cenário nacional permitirá um "salto olímpico" como vice na chapa do presidente Lula —, o jogo doméstico permanece em compasso de espera.
"Parece uma eleição gelada. O jogo é escondido, ninguém está definido nem se expõe, não há política nas ruas. Só o vereador Rui Palmeira aparece criticando o prefeito JHC", afirma um interlocutor do meio político ao observar o adiamento visível da pré-campanha.
As aferições de intenção de voto revelam um cenário de "embolamento" técnico, com a ascensão de novas forças desafiando a hegemonia de veteranos. O dado mais contundente vem da Agência Alfa/CNN, onde Marina Candia surge consolidando uma liderança que surpreende o establishment político, situando-se acima da margem de erro em relação a figuras históricas como Renan Calheiros.
Instituto (Data) | Renan Calheiros | Arthur Lira | Alfredo Gaspar | Marina Candia | Observações Principais |
Paraná Pesquisas (Out/2025) | 41% | 34% | 36,4% | - | Liderança de Renan; empate técnico Lira/Gaspar. |
Real Time Big Data (Set/2025) | 25% | 15% | 18% | 32% | Marina (cenário JHC) assume o topo da disputa. |
Agência Alfa/CNN (Nov/2025) | 31% | 17% | 32% | 35% | Marina lidera; Lira aparece isolado em 5º lugar. |
TDL (Jan/2026) - Cenário 1 | 23,1% | 22,3% | 23,4% | 19% | Triplo empate técnico; Marina no encalço. Indecisos: 28,1%. |
TDL (Jan/2026) - Cenário 5 | 29% | 24,3% | 25,6% | - | Sem Marina, Renan herda votos e lidera levemente. |
O prefeito de Maceió, JHC (PL), opera em um silêncio que beira o isolamento deliberado. Sua ausência em agendas públicas no interior do estado e a falta de registros com prefeitos e bancadas sugerem uma tática de preservação de imagem. Analistas apontam que o clã Caldas já identificou seu "porto seguro eleitoral": o Democracia Cristã (DC). A migração para o DC — abandonando o PL e o PSB — é uma manobra cirúrgica para fugir da polarização nacional e garantir sobrevida política sem os desgastes de legendas maiores.
No Agreste, o cenário é de resistência. Em Arapiraca, segundo maior colégio eleitoral, o apoio do prefeito Luciano Barbosa (MDB) a Arthur Lira não tem garantido o crescimento esperado. O levantamento de consumo interno indica que o prestígio de Barbosa não é transferível de forma automática, enquanto o Ministro Renan Filho segue como o "voto de legenda" que ancora a estabilidade do MDB na região.
Já Arthur Lira (PP) concentra forças no Sertão, utilizando a Codevasf como braço executor de pavimentação e infraestrutura urbana em Mata Grande, Água Branca e Delmiro Gouveia. Sua vitrine política é o Canal do Sertão, onde viabilizou investimentos de quase R$ 10 milhões para irrigação, tentando converter obras em capital político onde a hegemonia dos Calheiros é historicamente desafiada.
A variável mais explosiva da eleição é o escândalo financeiro do Banco Master. A prisão de Daniel Vorcaro, proprietário da instituição, sob acusação de fabricação de carteiras de crédito inexistentes (sem lastro), colocou a gestão de Maceió em rota de colisão com a Polícia Federal.
O investimento de **R 117 milhões** do IPREV (Previdência de Maceió) no banco — realizado sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) — tornou-se o principal trunfo da oposição. Enquanto Rui Palmeira denuncia o risco ao patrimônio dos servidores e aponta consultorias suspeitas, o líder do governo, Kelman Vieira, tenta blindar a gestão afirmando que o patrimônio total do instituto (R 1,4 bilhão) absorve o impacto. Contudo, a investigação de crimes de gestão temerária e fraudulenta paira como uma sombra sobre o grupo de JHC.
A "eleição gelada" de Alagoas está com os dias contados. O distanciamento do eleitor, evidenciado por abstenções de 19,87% no estado e 22,08% na capital, reflete o desinteresse por um jogo que, até agora, foi disputado apenas nos gabinetes.
O primeiro grande marco será o dia 6 de maio, prazo final para o fechamento do cadastro eleitoral e regularização de títulos. Até lá, a alta taxa de indecisos (28,1% na TDL) e o empate técnico persistente sugerem que a corrida ao Senado será decidida por quem melhor manobrar no campo minado dos escândalos financeiros e na capacidade de romper os limites de seus feudos regionais.

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