Alagoas em Transformação: O Equilíbrio entre a Superação da Pobreza e os Desafios Estruturais rumo a 2040.
No ano de 2024 consolidou-se como um divisor de águas para Alagoas. Pela primeira vez em sua história recente, o estado apresenta um contraste tão vigoroso quanto desafiador: vive seu momento de maior solidez fiscal e redução recorde de pobreza, ao mesmo tempo em que retém o título indesejado de maior taxa de analfabetismo do país. Alagoas nunca produziu tanta riqueza e eficiência administrativa, mas a persistência do abismo educacional revela que o crescimento econômico, embora acelerado, ainda enfrenta barreiras estruturais para se converter em desenvolvimento humano pleno. Rumo a 2040, o desafio central não é mais a escassez de recursos, mas a capacidade de transformar o superávit fiscal em um legado de alfabetização e cidadania.
Os dados da Síntese de Indicadores Sociais (SIS) do IBGE confirmam uma trajetória de ascensão social sem precedentes. Entre 2022 e 2024, Alagoas liderou a retração da vulnerabilidade no Nordeste, impulsionada por uma rede de proteção social técnica e premiada.
- Redução Histórica da Pobreza: O índice despencou de 60,5% (2012) para 40,9% (2024), o menor patamar da série histórica.
- Destaque Nacional na Extrema Pobreza: A taxa de extrema pobreza recuou para 6,8% em 2024. Este avanço posicionou Alagoas com a terceira maior retração do país nesta categoria, superada apenas pelo Pará e empatada com o Amapá.
- Resgate Social em Números: Em apenas dois anos (2022-2024), 416 mil alagoanos deixaram a linha de pobreza.
Este movimento é creditado à eficácia de programas como o Alagoas Sem Fome, o Cartão Cria (focado na primeira infância) e o Leite do Coração. O reconhecimento veio através do Prêmio Brasil sem Fome, concedido pelo Ministério do Desenvolvimento Social, que chancelou o estado como a unidade federativa que mais reduziu a insegurança alimentar grave no território nacional no último biênio.
Em contrapartida ao sucesso social, Alagoas enfrenta o que especialistas chamam de "crise de consolidação". O estado mantém uma taxa de analfabetismo de 14,2% entre a população de 15 anos ou mais — mais que o dobro da média nacional de 5,3%.
- O Cenário nas Capitais: Maceió registra o índice de 6,4%, a maior taxa de analfabetismo entre todas as capitais brasileiras.
- A Visão Especialista: Para a pedagoga e doutora em educação Sandra Regina Paz, o problema é estruturante e demanda a transição de "políticas de governo" (pontuais e eleitorais) para políticas de Estado perenes. Ela defende um Pacto Educacional que foque na alfabetização nos três primeiros anos de formação e na reformulação da Educação de Jovens e Adultos (EJA) com infraestrutura de tempo integral.
Para reverter esse quadro, a Seduc e a Semed articulam o Programa Brasil Alfabetizado, o Alfabetiza Maceió e a expansão das Escolas de Tempo Integral, buscando romper com a herança da monocultura que historicamente afastou o trabalhador das salas de aula.
O PIB Nominal de Alagoas projeta um crescimento robusto, estimado em R 100 bilhões para 2025** e com previsão de saltar para **R 107 bilhões em 2026. A economia, embora dominada pelo setor terciário, começa a desenhar uma nova face nas exportações.
Composição Setorial do PIB 2025 | Participação (%) |
Serviços | 70% |
Agropecuária | 17% |
Indústria | 13% |
Fonte: LCA (2025) / BNB/Etene |
A pauta exportadora ainda é hegemonizada pela agroindústria: o Açúcar (NCM 1) representa 73,4% das exportações, totalizando um Valor FOB de US 357,9 milhões**. Contudo, surge um novo vetor de diversificação: os **Sulfetos de minérios de cobre**, que já respondem por **15,6% (US 76,3 milhões) do total exportado. O turismo, motor do setor de serviços, recebe suporte de investimentos em infraestrutura como o Aeroporto de Maragogi e a duplicação da AL-101 Norte.
A saúde financeira de Alagoas é, hoje, sua maior vantagem competitiva. O Relatório de Gestão Fiscal (RGF) de 2024 aponta que o estado não apenas cumpre a lei, mas opera em uma "zona de segurança" confortável.
- Eficiência nos Gastos com Pessoal: Enquanto o limite de alerta da LRF é de 44,1%, Alagoas encerrou 2024 com apenas 36,01% da RCL comprometida com folha de pagamento.
- Investimento em Ascensão: Houve uma alta de 20,8% nos investimentos estruturantes, somando R$ 3,277 bilhões.
- Ajuste da Dívida: A dívida consolidada líquida, que sufocava o estado com 177,80% da RCL em 2015, caiu drasticamente para 86,11% em 2024.
- Economia Estratégica: Através do programa Alagoas Mais Sustentável, o governo busca reestruturar dívidas com o BIRD, com uma economia estimada em mais de R$ 650 milhões (Valor Presente Líquido). Este montante é o "combustível" planejado para financiar a erradicação do analfabetismo.
O estado também superou os limites constitucionais, aplicando 13,19% em Saúde e 25,12% em Educação.
O Plano de Desenvolvimento Estadual projeta um Alagoas integrado e industrializado, focado em três eixos principais:
- Diversificação e Gás Natural: Aproveitar a cadeia de gás natural e o polo farmoquímico para atrair indústrias de alto valor agregado, reduzindo a dependência da monocultura de cana.
- Universalização do Saneamento: Obras de saneamento são tratadas como prioridade, atuando como indutoras de saúde pública e valorização do turismo.
- Integração Produtiva: A meta para 2040 é garantir que a solidez fiscal (Superávit Primário) seja convertida em geração de renda qualificada. O objetivo é que o crescimento do PIB não seja apenas um dado estatístico, mas o reflexo de uma população alfabetizada e inserida no mercado formal.
Alagoas superou a insolvência fiscal e provou ser capaz de retirar quase meio milhão de pessoas da pobreza em tempo recorde. A sustentabilidade desse progresso até 2040 depende, obrigatoriamente, da solução do "enigma da alfabetização". Com contas em dia e investimentos em alta, o estado possui, pela primeira vez, as ferramentas necessárias para pactuar uma educação de Estado que transforme Alagoas em uma potência não apenas em indicadores fiscais, mas em capital humano e dignidade social.

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