Rio Largo: O Berço da Indústria Alagoana entre a História e a Urgência da Preservação.
Para o viajante que desembarca no Aeroporto Internacional Zumbi dos Palmares, a cidade de Rio Largo é mais do que uma coordenada geográfica a 27 km de Maceió; é o portal de entrada para uma Alagoas que pulsa entre a modernidade logística e as ruínas de um passado glorioso. O acesso, facilitado pela rodovia BR-104, ganha um charme especial através da "conexão ferroviária com a história" proporcionada pelo VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Este sistema de transporte, que sucede a antiga malha ferroviária essencial para o escoamento açucareiro, convida o turista cultural a um roteiro onde o som dos trilhos ecoa o ritmo das antigas fábricas. Rio Largo não é apenas um ponto de passagem, mas um destino de memória industrial que aguarda para ser redescoberto.
A certidão de nascimento de Rio Largo está escrita nas águas dos rios Satuba e Mundaú. O município originou-se de um movimento centrífugo: a expansão dos antigos engenhos de "Alagoas do Norte" (região que hoje compreende o município de Santa Luzia do Norte) em direção aos vales férteis do interior. Essa migração não foi apenas territorial, mas tecnológica, utilizando a força hídrica para movimentar as primeiras moendas.
Rio Largo ostenta o título de "primeira cidade industrial de Alagoas", um fenômeno impulsionado pela Companhia Alagoana de Fiação e Tecidos (CAFT). Através das fábricas Cachoeira e Progresso, o município viu nascer um novo modelo social: as vilas operárias, onde o apito da fábrica ditava o tempo da vida. A transição dos antigos engenhos para a escala industrial trouxe consigo a sofisticação técnica, substituindo as moendas hídricas por maquinário de ponta, como as moendas de três rolos, consolidando usinas de vulto como a Santa Clotilde e a Usina Utinga Leão.
Este cenário foi moldado por figuras cuja influência transcendia os muros das fábricas. É irônico notar que um dos maiores titãs políticos da modernidade, Arnon de Mello, nasceu precisamente no Engenho Cachoeirinha, o coração do antigo sistema agrário que ele veria transformar-se. Ao lado de nomes como o Comendador Gustavo Paiva e Luiz de Souza Cavalcante, essas lideranças não apenas consolidaram o polo industrial, mas integraram Rio Largo de forma definitiva à elite econômica e política do estado.
A paisagem de Rio Largo é uma simbiose entre a chaminé e a mata. O município integra o chamado "Corredor Verde da Rota do Açúcar", uma zona de transição que preserva remanescentes vitais da Mata Atlântica. Reservas como a Mata do Rolo e a Mata da Sálvia compõem o mesmo ecossistema regional que abraça Rio Largo, servindo como santuários ecológicos para a fauna e flora locais.
Para o lazer, a cidade oferece espaços que harmonizam a herança industrial com o frescor das águas:
- Banho do Japi: Um refúgio hídrico tradicional da população local e visitantes;
- Usina Utinga Leão: Além de seu parque industrial histórico, a usina permite a visitação em áreas que revelam a riqueza hídrica e a vegetação preservada, demonstrando o potencial de um turismo que une história e natureza.
- Banho do Japi
Deterioração, Enchentes e o "Fogo-Morto"
O termo "fogo-morto", imortalizado na literatura e na história industrial, descreve o triste silêncio das fornalhas apagadas dos antigos banguês. Em Rio Largo, esse conceito ganha contornos físicos na deterioração das vilas fabris e das estruturas da CAFT. A enchente de 2010 não foi apenas um desastre natural, mas uma "ruptura traumática" na memória coletiva, varrendo do mapa a biblioteca municipal e criando vazios urbanos que hoje são feridas abertas na paisagem.
Essas ruínas são o que o historiador Le Goff define como Monumento: do latim monere, aquilo que serve para "advertir", "iluminar" e "instruir". As paredes descascadas das fábricas e os terrenos vazios deixados pelas cheias são "silêncios" que precisam ser iluminados. Preservar o que resta não é um luxo estético, mas o dever de manter o sinal que perpetua a recordação das gerações operárias para os jovens do futuro.
A preservação de Rio Largo exige uma transição da nostalgia para a ação. É imperativo que o poder público e a iniciativa privada estabeleçam Parcerias Público-Privadas (PPPs) e ofereçam incentivos fiscais para a restauração do patrimônio industrial remanescente. A revitalização das áreas atingidas pela enchente deve ser vista como uma oportunidade de criar novos espaços de cultura e turismo, devolvendo vida ao que o "fogo-morto" silenciou.
A manutenção da identidade riolarguense depende do cumprimento rigoroso do Plano Diretor Municipal e da lei estadual que criou o Museu de Território Industrial Gustavo Paiva . Somente através de uma gestão urbana consciente será possível evitar o "apagamento" definitivo de nossa história. Rio Largo, com seu VLT e suas chaminés, possui todos os elementos para se tornar um ícone do turismo cultural nacional, desde que compreendamos que suas ruínas são, na verdade, os alicerces do nosso futuro.



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