Maçonaria em Alagoas: Entre Ideais Iluministas, a Abolição e o Progresso Industrial.
A Maçonaria, em sua gênese oitocentista, define-se como uma instituição iniciática, filosófica e filantrópica que se colocou na vanguarda das transformações sociais brasileiras. Herdeira direta da filosofia das Luzes, a Ordem assumiu a missão de atuar como a "afugentadora das sombras do espírito", combatendo o obscurantismo e as heranças do Antigo Regime através da Razão.
No plano nacional, a Maçonaria foi o cadinho onde se forjaram os grandes marcos da Independência, Abolição e República. Entretanto, essa influência não era homogênea. A Ordem refletia as tensões da elite imperial, dividida entre o Grande Oriente do Lavradio, de inclinação monarquista e sob a batuta do Visconde do Rio Branco, e o Grande Oriente dos Beneditinos, núcleo do pensamento liberal-republicano liderado por Saldanha Marinho. Essa clivagem política interna não apenas moldou o debate no Rio de Janeiro, mas ecoou profundamente nas províncias, definindo as alianças e os conflitos na sociedade alagoana.
A consolidação das "colunas" maçônicas em solo alagoano deu-se através de oficinas que funcionavam como centros de sociabilidade da elite pensante. As primeiras e mais influentes lojas mencionadas nos registros históricos são:
- Amor da Pátria (fundada em 1838 por João Francisco Regis e regularizada pelo Inspetor Geral Floriano Vieira da Costa Delgado Perdigão).
- Virtude e Bondade (epicentro da elite comercial de Maceió).
- Perfeita Amizade Alagoana (uma das mais longevas instituições da capital).
A Maçonaria alagoana era uma rede de poder técnico e administrativo. O quadro social da Loja Virtude e Bondade revela uma elite urbana composta majoritariamente por negociantes (20 membros) e empregados públicos (17 membros), incluindo juízes, deputados e inspetores.
Entre as figuras centrais, destacam-se:
- Jacinto José Nunes Leite: Negociante de origem portuguesa (membro nº 45 da Virtude e Bondade), que exemplifica a conexão entre a imigração, o comércio e os ideais de progresso.
- José Higino de Carvalho: Secretário da Perfeita Amizade Alagoana, jornalista e o grande articulador do movimento abolicionista.
- Floriano Peixoto: Figura de proeminência regional e nacional, inserida no contexto de articulação das potências maçônicas.
Houve uma simbiose perfeita entre a "Luz da Razão" e o "Aço das Ferrovias". A Maçonaria atuava como o espaço aglutinador dos interesses de classe da elite progressista, que via na modernização do território — através de estradas de ferro e do fortalecimento comercial — a superação do atraso colonial.
A Maçonaria alagoana traduziu sua "consciência coletiva" em ações de alto custo financeiro e social. O braço secular dessa transformação foi a Sociedade Libertadora Alagoana, fundada em 1881, que operava a partir do antigo Teatro Maceioense.
A transição da caridade individual para a reforma sistêmica pode ser observada nos dados financeiros da época. Um caso emblemático foi o da escravizada Amada. Sua proprietária, Dona Eugenia, recusou-se a conceder-lhe a liberdade, mesmo quando Amada apresentou metade do valor necessário. A Sociedade Libertadora Alagoana interveio, pagando o complemento de 200$000 réis para garantir sua alforria por vias legais.
No campo educacional, o projeto mais audacioso foi a Escola Central em Maceió, voltada para a educação técnica de meninos negros libertos. Os dados mostram o sacrifício financeiro da instituição:
Ação Social / Instituição | Receita / Investimento | Observação Histórica |
Alforria da escravizada Amada | 200$000 réis | Complemento para vencer a recusa de Dona Eugenia. |
Receita Total da Escola Central (1888) | 22:725$220 réis | 88% do orçamento dependia de loterias provinciais. |
Montagem de Oficinas e Matéria-prima | 29:460$399 réis | O investimento superou a receita em mais de 6:700$000 réis. |
Doação da Princesa Imperial | 200$000 réis | Apoio financeiro direto ao projeto da Escola Central. |
O déficit operacional da Escola Central demonstra que, para a Maçonaria, a educação laica e a formação profissional da juventude negra não eram negócios, mas um compromisso filantrópico prioritário.
O legado de figuras como José Higino de Carvalho e Jacinto José Nunes Leite reside na criação de uma nova consciência social que priorizava a educação, o fim da escravidão e o desenvolvimento industrial. A Maçonaria alagoana não foi apenas uma espectadora da história; ela foi a engenheira de uma modernidade que buscava transformar súditos de um império escravocrata em cidadãos de uma nação livre e instruída.

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