Maçonaria: História, Organização e o Papel da Instituição no Brasil e no Mundo.
A Maçonaria é uma instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica e progressista. No léxico sociológico contemporâneo, é classificada como uma sociedade discreta, distanciando-se do rótulo anacrônico de "sociedade secreta", uma vez que sua existência, sedes e finalidades são de conhecimento público e jurídico. A ordem fundamenta-se nos princípios universais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, buscando o aperfeiçoamento intelectual e moral da humanidade.
É fundamental esclarecer, sob a ótica institucional, que a Maçonaria não é uma religião, embora exija de seus membros a crença em um princípio criador. Da mesma forma, a instituição não professa ideologia política partidária. Para preservar a harmonia e a tolerância, é terminantemente proibida a discussão de temas político-partidários ou dogmas religiosos dentro das Lojas, garantindo que o foco permaneça na investigação da verdade e no exame da moral.
A evolução da Maçonaria reflete a transição das guildas medievais para os centros de debate iluministas:
- Maçonaria Operativa (Idade Média): Composta por guildas de pedreiros (masons) que detinham o monopólio técnico da construção civil. Foram responsáveis por obras monumentais do estilo Gótico, como as catedrais de Notre Dame e Chartres. O ofício baseava-se na Geometria Sagrada, utilizando constantes matemáticas como o Pi (\pi), o Número de Ouro e a Sequência de Fibonacci para transpor o plano macrocósmico para o microcósmico. O conhecimento era transmitido oralmente sob segredo-sagrado, e os obreiros utilizavam "marcas lapidárias" nas pedras para identificar a autoria do trabalho e garantir o pagamento.
- Maçonaria Especulativa (1717 em diante): Marco da fundação da Grande Loja de Londres. Neste estágio, a "construção" tornou-se metafórica: o indivíduo é a "pedra bruta" que deve ser lapidada em "pedra polida" através do estudo e da virtude.
Antes da fundação da primeira potência nacional, o Brasil já vivenciava uma efervescência maçônica influenciada por estudantes que retornavam da Universidade de Montpellier, na França — centro irradiador de ideais republicanos. Registram-se como marcos precursores o Areópago de Itambé (Pernambuco, 1796) e a Loja Cavaleiros da Luz (Bahia, 1797), embriões do sentimento libertário nacional.
A estrutura maçônica mundial é descentralizada. Não existe um "Papa" maçônico ou uma sede global única; a ordem organiza-se em Potências ou Obediências (Grandes Lojas ou Grandes Orientes) que exercem soberania total em seus territórios. A legitimidade de uma Potência advém do "Reconhecimento" mútuo e de tratados de amizade, como os mantidos com a Grande Loja Unida da Inglaterra (UGLE). Estima-se que existam cerca de 6 milhões de maçons no mundo, unidos por uma comunhão de princípios e rituais compartilhados.
A trajetória da Maçonaria confunde-se com a própria formação do Estado brasileiro. O Grande Oriente do Brasil (GOB), fundado em 17 de junho de 1822, foi o epicentro de movimentos como a Independência, a Abolição e a República. Figuras como José Bonifácio (primeiro Grão-Mestre) e D. Pedro I (segundo Grão-Mestre) foram pilares dessa atuação.
Atualmente, o país conta com mais de 211.000 maçons, distribuídos em três vertentes principais:
- Grande Oriente do Brasil (GOB): A potência mais antiga (1822). Possui aproximadamente 97.000 membros ativos e entre 2.400 a 3.200 lojas federadas, sediada no Palácio Maçônico em Brasília.
- CMSB (Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil): Entidade que congrega as Grandes Lojas estaduais.
- COMAB (Confederação Maçônica do Brasil): Fundada em 1973, originou-se das cisões ocorridas nos Grandes Orientes Estaduais ligados ao GOB, organizando os Grandes Orientes Independentes sob uma nova estrutura federativa.
A Maçonaria exige a crença em um princípio criador denominado Grande Arquiteto do Universo (G.A.D.U.). Esta nomenclatura é um conceito supra-religioso que permite que cristãos, judeus, muçulmanos e outros teístas convivam em fraternidade, respeitando a liberdade de consciência. O dever do maçom é sintetizado no trinômio: "Respeito a Deus, amor ao próximo e dedicação à família", combatendo o fanatismo e a ignorância.
A atuação da Maçonaria no mundo e no Brasil na esfera social é pautada por dados estatísticos robustos e intervenções cívicas; A ordem mantém hospitais e maternidades de alta complexidade. Através de suas lojas pelo mundo e em colaboração de esposas de maçons orgaanizadas em Fraternidades Femininas atua no suporte a menores abandonados e comunidades carentes. Campanhas como "Maçonaria a Favor da Vida" combatem a dependência química, além de projetos voltados à erradicação do analfabetismo.A instituição teve papel ativo na sustentação de projetos como o "Ficha Suja" (nomenclatura utilizada nos registros internos para se referir à Lei da Ficha Limpa) e atua na defesa da soberania da Amazônia, além de ocupar assento no Conselho Nacional de Segurança Pública (CONASP).
A missão da Maçonaria no século XXI permanece a de ser uma "escola de líderes" e um centro de aperfeiçoamento moral. O objetivo final não é o benefício do membro, mas sim o seu preparo para atuar como um cidadão íntegro e exemplar. Ao buscar a "unificação do homem com o divino" e o bem-estar da humanidade, a Maçonaria reafirma seu compromisso histórico de ser um agente de equilíbrio e progresso social, agindo silenciosamente na construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

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