Rio Largo em Foco: Resiliência ou Reparação? O Projeto Centro Protegido e o Futuro do Rio Mundaú.

 

Rio Mundaú -Centro de Rio Largo


O Rio Mundaú é um sistema vivo que não perdoa a amnésia urbanística. Sua bacia, que nasce no Planalto da Borborema em Garanhuns (PE), percorre um gradiente de vulnerabilidades ao atravessar  União dos Palmares e Murici, até desaguar sua fúria e seus sedimentos em Rio Largo (AL). Historicamente, a região é marcada por um ciclo de "tragédias anunciadas". O evento de 2010, em que os acumulados de chuva ultrapassaram 250mm em apenas três dias nas cabeceiras, não foi apenas uma anomalia climática, mas um choque de realidade sobre a ocupação indevida de planícies de inundação.

O trauma social deixado pelas cheias de 2010 e a reiteração do caos em 2022 expõem uma falha crônica: a tentativa de gerir bacias hidrográficas ignorando a Antropogeomorfologia. O que se viu em Rio Largo foi o resultado de décadas de planejamento urbano que tratou o rio como um canal estático, desprezando a dinâmica do meio físico e a "memória" que o leito guarda de seus transbordamentos naturais.

A resposta ao clamor popular de Rio Largo atende pelo nome de "Projeto Centro Protegido", o qual foi desenvolvido pelo Movimento Reviver Cachoeira , que tem a frente o cidadão Jorge Lucena. Trata-se de uma intervenção de engenharia pesada, um Processo Tecnológico (conforme a distinção de Bitar, 1995) desenhado para conter a força bruta da natureza. 

Os componentes centrais do projeto incluem:

  • Muro de contenção de 280 metros: Uma barreira de concreto imponente, desenhada para isolar o núcleo comercial do alcance das águas.
  • Soleiras controladas para manejo de vazão: Estruturas que visam disciplinar a velocidade e o volume do fluxo em momentos críticos.
  • Integração urbana com passarela panorâmica e ciclovia: Uma tentativa de suavizar a brutalidade do concreto, integrando a estrutura de defesa ao lazer da população.

Toda barragem ou muro é uma cicatriz no ecossistema de fluxo. A fragmentação do rio (Cruz et al., 2010) é o impacto mais severo dessas obras, interrompendo o curso natural de inundação e o transporte de sedimentos. Em Rio Largo, a necessidade de reparação ecológica manifesta-se na inclusão de uma escada para peixes na barragem da cachoeira.

Essa medida não é um "adicional" estético, mas uma tentativa mínima de mitigar a barreira imposta à fauna aquática. Sob a ótica da Antropogeomorfologia, a obra altera a morfologia do canal, transformando trechos lóticos (água corrente) em sistemas lênticos (água parada), o que desequilibra a ciclagem de nutrientes. O concreto tenta proteger o centro, mas a saúde do Mundaú depende de que essa intervenção não se torne um obstáculo intransponível para os processos bióticos que sustentam a bacia.

O Sistema de Alerta Hidrológico (SAH Mundaú) é uma ferramenta vital, mas dados técnicos da tese de Gutierres (2019) sobre barragens em bacias vizinhas, como o Rio Una, mostram que monitorar o nível da água é apenas metade do trabalho. Para que o Centro Protegido de Rio Largo não falhe como outras obras públicas de contenção, é imperativo o estabelecimento de uma Auditoria Geomorfológica contínua.

Resiliência climática não se constrói apenas com concreto e ferro. O Projeto Centro Protegido pode oferecer o alívio imediato contra as cheias, mas a segurança definitiva de Rio Largo depende de uma mudança radical de paradigma. É preciso transitar de uma engenharia de contenção para uma gestão integrada da bacia do Mundaú.

A ciência geomorfológica deve deixar de ser um anexo em relatórios de impacto para se tornar o eixo central do planejamento urbano. Como advertido por Bitar (1995), ignorar o funcionamento dos sistemas naturais em favor de soluções tecnológicas isoladas é um erro que as águas, mais cedo ou mais tarde, tratam de corrigir. Rio Largo precisa de proteção, sim, mas precisa, acima de tudo, de um pacto de respeito com a dinâmica do Rio Mundaú.

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