Irã e Estados Unidos: As Engrenagens de um Conflito Secular no Oriente Médio.

 


Pessoas caminham por Teerã, no Irã  • 02/01/2026 Majid Asgaripour/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS


O início de 2026 projeta o Irã em um vórtice de instabilidade sem precedentes, onde pressões domésticas e geopolíticas se colidem. Internamente, o regime enfrenta uma revolta ampla, iniciada no final de 2025, que atravessa estratos sociais e geográficos, de grandes centros a cidades pequenas. Externamente, a administração expansionista de Donald Trump intensifica o cerco com tarifas de 25% sobre parceiros comerciais de Teerã e a ameaça latente de intervenção militar, ecoando a recente deposição de Nicolás Maduro na Venezuela.

A animosidade entre Washington e Teerã não é um subproduto da conjuntura atual, mas o resultado de um "pecado original" histórico. Para entender 2026, é preciso revisitar a inversão de papéis ocorrida no século XX.

Evento (1953 vs. 1979)

Impacto Geopolítico

Golpe de 1953 (Operação Ajax)

Orquestrado pela CIA e pelo MI6 para derrubar o primeiro-ministro Mohammed Mossadegh (líder laico e socialista) após a nacionalização do petróleo. O evento transformou o Xá Pahlavi em um "pilar estratégico" e absoluto dos EUA, alimentando um profundo sentimento anti-imperialista.

Revolução de 1979

A queda da monarquia pró-Ocidente e a ascensão da teocracia liderada pelo Aiatolá Khomeini. O Irã rompeu com a influência americana, classificando os EUA como o "Grande Satã", e passou de aliado central a principal adversário ideológico na região.

O poder no Irã é exercido através de uma estrutura dual. Enquanto o Artesh representa as forças armadas regulares — focadas na defesa territorial e desprovidas de fervor ideológico —, o Corpo de Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) funciona como um "exército paralelo" e guardião da ideologia de Estado. A lealdade absoluta ao Líder Supremo, Ali Khamenei, é regida pelo conceito de Velayat-e-Faqih (Tutela do Jurista).

A cultura estratégica da IRGC é sustentada por quatro pilares:

  • Identidade: Uma força militar ideológica e não convencional. A IRGC define-se como defensora da Revolução e não apenas do território, operando através de cinco ramos: Força Terrestre, Marinha, Força Aeroespacial, Força Quds (operações externas) e a Basij (policiamento ideológico doméstico).
  • Valores: Centralidade do martírio e da fé. Na mentalidade do regime, o sucesso militar deriva da pureza ideológica e da disposição ao sacrifício (inspirada no martírio de Imam Husayn), sobrepondo o "fator humano" ao hardware tecnológico.
  • Normas (Exportação da Revolução): A missão constitucional de levar a mensagem islâmica além-fronteiras e auxiliar movimentos de libertação contra o "imperialismo", vendo as relações internacionais através de uma lente de conflito perpétuo.
  • Lente Perceptual: Visão dicotômica do mundo (bem vs. mal). Os EUA e Israel são percebidos como ameaças existenciais malignas, justificando táticas assimétricas e a vigilância constante contra "inimigos internos".

Em 2026, a sobrevivência do regime é testada pela economia e pela erosão da legitimidade. A IRGC, contudo, não é apenas uma força militar, mas um império econômico. Ela controla setores vastos, da construção civil (através da Khatam al-Anbiya) a fundações de caridade (Bonyads), além de dominar o mercado negro e a economia subterrânea para contornar sanções.

O descontentamento popular é combatido pela Basij, que recruta membros das classes sociais mais baixas para servir como força de choque na "polícia moral". No exílio, Reza Pahlavi tenta capitalizar a revolta, mas analistas como Gunther Rudzit apontam que seu longo afastamento do país impede uma liderança unânime. O cenário é de um impasse narrativo:

  • Perspectiva Ocidental/HRANA: O regime mantém-se através do massacre sistemático da própria população.
  • Narrativa de Teerã (Sheik Hossein): As tensões seriam orquestradas por grupos de inteligência estrangeiros infiltrados para incitar uma guerra civil e fragmentar o país.

O Irã projeta poder através de alianças assimétricas para evitar o confronto direto, utilizando a Força Quds, cujo comandante responde diretamente ao Líder Supremo, ignorando a hierarquia convencional da IRGC.

  1. Deterrence Nuclear: O programa nuclear é visto como a garantia de sobrevivência do regime. Historicamente, Khomeini já justificava a necessidade de "armas atômicas" para possibilitar operações ofensivas e deter a oposição dos EUA.
  2. Influência Regional: A liderança do "Eixo da Resistência", composto pelo Hezbollah (Líbano), Houthis (Iêmen) e milícias xiitas no Iraque, permite a Teerã atacar interesses americanos e israelenses com baixo custo político.
  3. Vingança de Qasem Soleimani: O assassinato do general em 2020 permanece uma cicatriz na psique militar, impulsionando a "cultura de retaliação" e a necessidade de expulsar as forças dos EUA da região.

A geografia iraniana é sua arma de dissuasão econômica mais potente. O país detém a chave dos principais pontos de estrangulamento (chokepoints) do subcomplexo regional.

  • Estreito de Ormuz: Canal vital por onde transitam 19% do volume global de petróleo (dados base de 2016). Cerca de 80% desse fluxo é destinado a mercados asiáticos como China, Japão e Coreia do Sul.
  • Segurança e Alternativas: O fluxo é tão crítico que produtores buscam alternativas como o Gasoduto Leste-Oeste (Saudi Aramco) e o sistema SUMED (que conecta o Mar Vermelho ao Mediterrâneo, entre Ain Sokhna e Alexandria), visando reduzir a dependência de Ormuz.
  • Fragilidade Jurídica: Irã e EAU não ratificaram a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (CNUDM) de 1982. A navegação opera sob o costume internacional da "passagem inocente", regime que permite ao Irã impor restrições caso considere o trânsito "prejudicial à paz ou segurança" do Estado costeiro.

O Irã de 2026 encontra-se em uma encruzilhada de resistência amarga. Apesar do clamor das ruas e da pressão asfixiante de Washington, o regime demonstra uma resiliência estrutural fundamentada em sua "Cultura Estratégica de Martírio" e no controle absoluto da economia interna. Analistas apontam que, sem uma oposição unificada e interna, a queda iminente dos aiatolás permanece incerta.

A real questão é por quanto tempo a população e o regime aguentam esse ciclo de massacre e resistência.

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