Isabel Zua: A Melodia da Esperança no Coração do Cazenga.
Quando a Educação se Torna Viral.
O que começou como uma rotina de resiliência numa escola do município do Cazenga, em Luanda, transformou-se num dos relatos mais inspiradores da educação lusófona contemporânea. Isabel Zua Domingos, uma educadora de 24 anos, tornou-se um fenómeno global após vídeos da sua recepção em sala de aula ultrapassarem a marca dos 5 milhões de visualizações.
O slogan "Pim, pim, pim, a professora está a chegar!" é mais do que uma saudação; é um dispositivo pedagógico de precisão. Isabel explica que a onomatopeia funciona como a buzina de um automóvel: um alerta necessário para despertar quem está distraído no "trânsito" da vida e chamá-lo de volta ao caminho do conhecimento. Inicialmente gravando-se a si própria com o telemóvel estrategicamente colocado na pasta, Isabel contou mais tarde com o apoio do aluno Neves para registar estes momentos de explosão rítmica.
"Pim, pim, pim, a professora está a chegar! Boa noite, boa noite, boa noite, professora! Como estás? Estou bem e vocês? Maravilhosamente bem!"
A história de Isabel é um testemunho de superação que começou muito antes da fama digital. Nascida na Mahanga (Casque Terra Vermelha), a sua vida foi marcada por uma mudança precoce e involuntária.
- Infância e Mudança: Aos 2 anos de idade, após a demolição da casa da família, Isabel mudou-se para o Bengo, um facto que moldou o seu arco de resiliência.
- Vocação Precoce: Aos 10 anos, as bonecas e as amigas do bairro foram as suas primeiras "alunas". Já alfabetizada, Isabel ensinava a ler a quem ainda não sabia.
- Laboratório na Igreja: Antes da profissionalização, foi coordenadora do grupo coral infantil (Yam), onde refinou a sua capacidade de gerir grupos através da música.
- Início Profissional: Aos 20 anos, ingressou oficialmente no ensino. Após uma passagem pelo I Ciclo (7ª à 9ª classe), encontrou a sua verdadeira vocação no ensino primário, leccionando atualmente a 5ª classe.
A técnica de Isabel Zua fundamenta-se na premissa de que a aprendizagem deve ser um ato de alegria e não de imposição. Ela utiliza o ritmo como um fio condutor para diversas disciplinas, convertendo, por exemplo, louvores religiosos em hinos de estudo. "A professora é a chuva que rega árvores onde não há água", define, numa metáfora sobre a sua missão de nutrir o potencial dos alunos em contextos áridos.
Recurso Utilizado | Objectivo Pedagógico |
Slogan "Pim Pim" | Gestão do foco e atenção imediata (analogia da buzina). |
Adaptação Musical | Memorização e motivação (ex: "Estudar cuiá ya"). |
Anedotas e Histórias | Gestão da alegria e quebra de barreiras emocionais. |
Afeto e Empatia | Redução da assiduidade negativa e criação de vínculo. |
Lecionar no Cazenga exige um sacrifício físico e emocional que as câmaras raramente mostram. Diariamente, Isabel percorre uma caminhada de 40 minutos entre lama e ruas inseguras para chegar à escola. Já enfrentou três tentativas de assalto; numa delas, a "pureza" da sua profissão salvou-a: ao abrir a pasta e encontrar apenas giz e batas, o delinquente, tocado pela figura da professora, devolveu-lhe os pertences.
Na sala de aula, ela enfrenta a realidade de crianças que chegam sem alimentação adequada ou que vivem o trauma da expulsão por falta de pagamento de mensalidades. Para Isabel, aquele espaço deve ser, obrigatoriamente, um "lugar de conforto", onde os alunos esquecem os conflitos familiares. Com uma entrega serena, ela reitera: "A felicidade deles é a minha".
A alegria vibrante que Isabel exibe hoje é uma vitória sobre uma adolescência "pesada". Aos 17 anos, enquanto tentava o sonho de ser cantora, foi vítima de assédio numa produtora musical. O trauma foi amplificado pela incompreensão: um amigo próximo, que a introduzira no meio, preferiu não agir, deixando-a isolada e injustiçada, saindo da situação como se fosse a "vilã".
Abalada pela ausência física e emocional dos pais durante essa fase, Isabel escolheu não sucumbir à depressão. Enterrou o sonho da música profissional, mas resgatou a sua essência para a sala de aula. Hoje, ela é a Isabel que escolheu ser: uma mulher que transformou a dor de não ter sido protegida no instinto de proteger e guiar centenas de crianças.
O impacto do seu trabalho atravessou o Atlântico e o Índico. Isabel confessa que, inicialmente, temeu que os contatos de órgãos internacionais fossem tentativas de burla, tal era a sua incredulidade perante a dimensão da sua fama no Brasil e em Moçambique. O seu percurso foi validado por:
- G1 (Portal da Globo, Brasil)
- Ana Maria Braga (Apresentadora brasileira)
- TV Zimbo (Programa "Grandes Manhãs", Angola)
- Zap e TV Record
- PlatinaLine, AngoRussia e Africando
Isabel Zua mantém o foco no pragmatismo. O seu maior desejo é a estabilidade para poder continuar a servir o povo angolano. Entre as suas prioridades imediatas e apelos públicos, destacam-se:
- Ensino Público: Um apelo direto à Ministra da Educação, Luísa Grilo, para uma oportunidade no sector estatal, onde o seu método poderá beneficiar as crianças do Estado.
- Formação Superior: A necessidade de uma bolsa de estudo para ingressar em áreas como Psicologia Educacional, Gestão Escolar ou Magistério Primário.
Para Isabel Zua, o sistema educativo angolano deve ser refundado sobre três pilares: empatia, amor e criatividade. Ela acredita que ser professor não é apenas amar a profissão, mas amar profundamente aqueles que nos permitem exercê-la, tratando cada aluno como um membro da própria família.

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