Alagoas: O Estado dos Clãs e o Abismo entre a Casa-Grande e a Senzala Moderna.

 

Fachada da Assembleia Legislativa de Alagoas                                                                               Imagem: Divulgação     



Alagoas não é apenas um estado brasileiro; é a ferida aberta do coronelismo que insiste em não cicatrizar. No coração do Nordeste, o território alagoano opera como a antítese do desenvolvimento nacional, onde linhagens políticas seculares preservam fortunas e mandatos enquanto a população amarga os piores indicadores de pobreza extrema do país. Esta não é uma democracia plena, mas uma simbiose parasitária entre a propriedade de terras e o controle social. A estrutura de poder é uma transposição anacrônica da lógica de "Casa-Grande e Senzala": o governo não é exercido para o povo, mas como uma extensão do patrimônio privado de poucas famílias que tratam a máquina pública como seu curral particular. Em Alagoas, a política é o negócio da elite, e a miséria é o seu subproduto mais lucrativo.

A sobrevivência desses clãs depende do controle absoluto de "matrizes políticas", cidades que servem como laboratórios de domínio e portos seguros eleitorais.  Nestes quartéis-generais, o controle sobre vereadores e prefeitos é férreo, garantindo a fidelidade de uma massa populacional dependente das migalhas do poder local. O controle local assegura mandatos de "longa duração" em Brasília, permitindo que a elite alagoana tenha um peso desproporcional nas decisões da República enquanto o estado permanece estagnado.

Houve quem tentasse rasgar esse tecido oligárquico. Sebastião Marinho Muniz Falcão, vindo de Pernambuco como delegado do trabalho, desafiou a ordem estabelecida ao fiscalizar a opressão contra os trabalhadores. Sua vitória em 1955 contra Afrânio Lages foi um sismo no poder tradicional.

A reação da elite foi brutal e sanguinária. Em 13 de setembro de 1957, a Assembleia Legislativa tornou-se palco de um crime contra a democracia. Com 22 dos 35 deputados declaradamente contra ele, Falcão enfrentou um processo de impeachment que culminou em um tiroteio dentro do parlamento. Deputados entrincheirados abriram fogo, resultando na morte de Humberto Mendes e no ferimento de diversos presentes. Muniz Falcão feriu interesses poderosos ao tentar abrir uma nova era no trabalho, e o sistema respondeu com pólvora e a primeira destituição de um governador na história do país.

O atraso alagoano é um projeto. A monocultura latifundiária da cana-de-açúcar moldou uma sociedade de exclusão, onde os senhores de engenho transmutaram títulos da Guarda Nacional (1831) em mando político perpétuo. O "Coronelismo" em Alagoas não é um termo histórico, mas uma realidade cotidiana onde o detentor da terra é, simultaneamente, juiz, delegado e legislador.

Apesar da queda de governadores e das crises cíclicas, as oligarquias alagoanas provam ser mestras na arte da sobrevivência. Como num tabuleiro de xadrez secular, elas "escolhem as peças do jogo em andamento" para que tudo mude e tudo permaneça igual. O estado vive em um limbo esquizofrênico: exibe modernidade tecnológica e veículos de comunicação de ponta, mas mantém os pés enterrados no barro do latifúndio e na exploração do homem. Alagoas segue sendo o laboratório brasileiro do arcaísmo, onde o sobrenome ainda vale mais que a lei e o abismo entre a Casa-Grande e a Senzala Moderna é mantido sob vigilância constante dos mesmos clãs de sempre.

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