Maceió de Duas Faces: O Abismo entre o Brilho do Turismo e a Realidade do Vale do Reginaldo.
Maceió não é uma só. Sob a gestão atual, a cidade consolidou-se como uma "capital partida", onde a prefeitura ergue um biombo de cristal na orla para ocultar a miséria dos vales. Enquanto o marketing oficial vende o azul turquesa das praias, o "esgoto de estimação" da capital — o Riacho Salgadinho — serpenteia pela cidade como uma cicatriz aberta. A tese central desta investigação é contundente: enquanto a orla recebe intervenções estéticas de altíssima visibilidade, os projetos de infraestrutura básica nas periferias, como o Vale do Reginaldo, tornaram-se laboratórios de "engenharia de papel", com custos que explodem sob o pretexto de uma balneabilidade seletiva que só atende ao turista.
Para o público externo, a gestão entrega marcos de "marketing urbano" desenhados para o Instagram. A contenção da orla, a Nova Orla do Porto, o luxuoso Marco dos Corais e a suntuosa Roda Gigante formam o cinturão de brilho da capital. São obras de rápida percepção e apelo estético, financiadas com recursos que contrastam violentamente com a carência de saneamento nos bairros adjacentes. É o "higienismo seletivo": gasta-se no que se vê, enquanto o que realmente importa para a saúde pública é empurrado para relatórios técnicos intermináveis e transposições que falham justamente quando o cidadão mais precisa.
O programa REVITALIZA/Maceió, ancorado em um empréstimo de USD 70 milhões contratado em 2018 junto à Corporação Andina de Fomento (CAF), prometia ser a redenção ambiental da cidade. No entanto, o que se vê é uma escalada financeira que desafia a lógica orçamentária.
O "Projeto Básico" de 2020 é um monumento à sofisticação burocrática. Utiliza modelos hidrológicos avançados como o HEC-RAS (Hydrologic Engineering Center – River Analysis System) e o modelo de autodepuração de Streeter-Phelps. No entanto, a aplicação prática dessas ferramentas parece focar mais na contenção de danos no "exutório" (Praia da Avenida) do que na solução das causas nas nascentes.
A maior prova de que o projeto prioriza a estética da orla em detrimento da saúde do Vale do Reginaldo é o conceito de "tempo seco". O sistema de bombardeamento de esgoto para o emissário submarino foi projetado para funcionar apenas em condições climáticas favoráveis.
A regra é cruel: quando começam as chuvas e o nível de diluição da carga orgânica ultrapassa os 20%, o bombeamento é automaticamente interrompido. Nesse momento, ocorre o chamado "bypass ambiental planejado": o sistema para, e todo o esgoto in natura, misturado à água da chuva, é despejado diretamente no leito dos riachos e, consequentemente, na Praia da Avenida. Enquanto o turista é avisado para não mergulhar, o morador do Vale do Reginaldo permanece submerso na lama e nos dejetos, já que a infraestrutura de "luxo" foi desenhada para proteger o exutório, não as pessoas.
A responsabilidade fiscal da gestão é posta em xeque quando analisamos o custo da "engenharia de papel". O valor máximo admitido apenas para a elaboração dos projetos executivos (Etapas 1 e 2) foi de R$ 2.849.270,24. É um volume expressivo de recursos destinados a consolidar relatórios, enquanto a execução no terreno se arrasta.
O contribuinte maceioense, especialmente aquele que vive nas áreas marginalizadas, está financiando uma dívida em dólar junto à CAF para custear soluções que, no limite, interrompem seu funcionamento justamente no período crítico das chuvas. É a transformação da infraestrutura em um acessório de luxo: sofisticado no memorial descritivo, mas inoperante na realidade social do vale.
Maceió caminha para se tornar um cenário de cinema com bastidores em ruínas. A urgência de uma gestão que equilibre o desenvolvimento hídrico-turístico com a dignidade humana no Vale do Reginaldo não pode mais ser ignorada por trás de luzes de LED e rodas gigantes. A revitalização não pode ser um conceito que termina onde começa a areia da Praia da Avenida; ela deve subir o morro e entrar no vale.
O cidadão comum, invisibilizado pelo brilho dos novos marcos turísticos de Maceió, continua sendo a peça que não encaixa no orçamento bilionário da capital.

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