O Xadrez de Alagoas 2026: Articulações, Polarização e a Disputa pelo Controle do Estado
Deputado Marcelo Victor presidente da Assembleia Legislativa de Alagoas — Foto: ALE-AL
As movimentações para o pleito de 2026 em Alagoas desenham um cenário de complexidade ímpar, um "imbróglio" que remete aos períodos mais técnicos e viscerais da nossa história política. Para o analista atento, o tabuleiro atual evoca o paradoxo de 1978, quando José Moura Rocha (MDB) obteve acachapantes 157.703 votos (45,70%) para o Senado, mas foi degolado pelo sistema de sublegenda, que garantiu a vitória de Luiz Cavalcante (ARENA) através da soma de votos de candidatos menores. Ou ainda 1982, sob a égide do "voto camarão" — a obrigatoriedade da chapa completa — que, somada à desistência de Teotônio Vilela, desarrumou os planos oposicionistas. Em 2026, as regras mudaram, mas a essência do "tudo ou nada" e a dependência de articulações de bastidores permanecem como o fiel da balança em uma parada tripartite entre os grupos de Renan Calheiros, Arthur Lira e JHC.
A sucessão do Palácio República dos Palmares está polarizada entre o Ministro dos Transportes, Renan Filho (MDB), e o prefeito de Maceió, JHC (PL/PSB). Renan Filho, amparado por uma gestão ministerial robusta e o apoio direto de Lula, tenta o retorno ao governo estadual. JHC, por sua vez, sustenta-se na capital, sua "fortaleza" onde foi reeleito com históricos 83%.
Os levantamentos apontam um equilíbrio precário, sempre dentro ou no limite das margens de erro (que variam de 2,2 a 3 pontos percentuais):
Instituto | Período | JHC (%) | Renan Filho (%) | Outros/Indecisos (%) |
Paraná Pesquisas | Dez/2025 | 47,6% | 40,9% | 11,5% |
TDL Pesquisa | Jan/2026 | 39,0% | 30,0% | 31,0% |
Real Time Big Data | Nov/2025 | 45,0% | 48,0% | 7,0% |
Com a renovação de 2/3 da Câmara Alta, o estado assistirá a um embate frontal entre caciques. Renan Calheiros (MDB) busca a longevidade de mais um mandato, enquanto Arthur Lira (PP) faz sua aposta de "tudo ou nada" ao tentar migrar da presidência da Câmara para o Senado. Contudo, o cenário está "embolado" por nomes de peso que podem desidratar os favoritos:
- Alfredo Gaspar (União/PL): Relator da CPMI, o deputado "caminha fortemente" para o Senado. Com apelo conservador e urbano, ele é a principal ameaça direta à base de Lira.
- Ronaldo Lessa (PDT): O atual vice-governador entra no jogo com uma função estratégica clara: drenar votos urbanos da oposição em Maceió, servindo como escudo para proteger o flanco de Renan Calheiros na capital.
- Davi Davino Filho (Republicanos): O candidato que "não tem nada a perder". Sem mandato atual para pôr em risco, Davino Filho é um competidor livre que pontua bem e pode decolar em voo solo, alterando a aritmética das duas vagas.
- Marina JHC: A potencial "carta na manga" da família Caldas. Sua candidatura visa garantir a manutenção da cadeira que hoje pertence à sua sogra, Eudócia Caldas, mantendo a hegemonia familiar no Senado.
Arthur Lira atua com o pragmatismo de um "camaleão" político. Sua sobrevivência em 2026 depende da lógica do "segundo voto" para o Senado. Ele articula um "palanque duplo": em Brasília, mantém interlocução fluida com o Governo Lula, atuando como relator da estratégica reforma do Imposto de Renda; em Alagoas, flerta com o bolsonarismo para viabilizar uma "dobradinha" com Alfredo Gaspar, incentivada pelo próprio Jair Bolsonaro. O objetivo de Lira é evitar o isolamento, capturando o eleitor que votará em Renan por pragmatismo, mas que pode ceder o segundo voto à estrutura do Progressistas.
Mais profundo que isso é o fator partidário: há uma estratégia em curso, capitaneada pelo Planalto, para levar JHC de volta ao PSB (partido da base de Lula). Isso explica o distanciamento público entre JHC e Arthur Lira, contrastando com os afagos explícitos do prefeito a Lula em eventos recentes em Maceió. JHC sabe que, para enfrentar a máquina dos Calheiros no interior, precisa da "bênção" federal ou de um realinhamento que neutralize a oposição de esquerda.
Nenhum movimento é definitivo sem passar pelo crivo de "Marcelo Victor" (MV), o presidente da ALE. Descrito nos bastidores como o "primeiro e único", MV é quem define a "garantia de vitória" no estado. Sua resistência histórica a qualquer parceria entre Renan Filho e JHC é o que mantém os grupos em campos opostos. Para qualquer postulante, pedir a bênção a Marcelo Victor é o rito de passagem obrigatório.
No flanco executivo, o governador Paulo Dantas (MDB) é o motor da "prefeiturização" do projeto governista. Com aprovação recorde entre 62,7% e 65%, Dantas controla o mapa das prefeituras: são aproximadamente 70 municípios (65 conquistados em 2024) sob a batuta do MDB. Somado ao controle de 20 das 27 cadeiras da ALE, Dantas é o articulador que garante que o peso do interior anule a vantagem de JHC na capital.
O campo progressista enfrenta o que o articulista Antonio Fernando da Silva (Fernando CPI) denominou como "Operação Cavalo de Troia". Trata-se de uma estratégia de fragmentação interna, visando criar ruídos e candidaturas paralelas — como as críticas ao mandato do deputado federal Paulão — para favorecer indiretamente grupos conservadores na disputa por vagas proporcionais e para o Senado. A desunião da esquerda em Alagoas serve, na prática, aos interesses das elites que orbitam o centro-direita.
O xadrez de 2026 em Alagoas é um jogo de espera. JHC renunciará, arriscando o controle de Maceió para Rodrigo Cunha, ou cumprirá o acordo ? ; Lira conseguirá manter seu perfil camaleônico entre Lula e Bolsonaro sem ser tragado pela polarização? ; Marcelo Victor manterá sua hegemonia inabalável sobre a ALE? ; O que é certo é que o alinhamento federal é apenas uma moldura para as disputas paroquiais, onde a sobrevivência política depende de quem controla as redes municipais e quem possui a chancela dos verdadeiros donos do poder local.

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